quinta-feira, 14 de agosto de 2014

SEMINÁRIO A identidade de gênero e a luta de classes

No começo de Julho, se realizou o Rio Festival Gay de Cinema, onde eu e Tatiana Cozzarelli participamos da mesa "A identidade de gênero e a luta de classes". Foi um debate muito rico e polêmico, onde nós do grupo de mulheres Pão e Rosas Brasil levamos a nossa estratégia da luta pelo comunismo. Demonstrando que a separação entre movimentos sociais e a luta dos trabalhadores precisa ser superada para acabarmos com as opressões e toda forma de exploração.Convido a todos a assistirem o debate e divulgarem para que mais pessoas possam conhecer nossas ideias.








segunda-feira, 4 de agosto de 2014

A EDUCAÇÃO CAPITALISTA E A HOMOFOBIA: UMA FONTE DE DOMINAÇÃO BURGUESA.

Contribuição do grupo Pão e Rosas para o III Encontro de educação pela diversidade sexual e respeito a identidade de gênero



Virginia Guitzel, trabalhadora da saúde pública e militante da Liga Estratégia Revolucionária – Quarta Internacional.



“A burguesia só da a classe operária a quantidade de conhecimento e cultura necessária para satisfazer seus próprios interesses e não é muita [e mais] a burguesia tem pouco a esperar e muito a temer da formação intelectual dos operários”. F. Engels. 


Se olharmos hoje para as capas das revistas, os clipes musicais, as novelas das principais emissoras, para as estantes dos livros mais vendidos poderíamos dizer que a revolução sexual proposta nos anos 60 foi conquistada.  A presença de personagens LGBT nas novelas, a possibilidade de TRANS* concorrerem as eleições com sua identidade de gênero reconhecida (como o caso de Renata Tenório, candidata da deputada federal pelo PSB), a conquista da união estável – e em diversos países o casamento igualitário. Porém, se olharmos mais atentamente, veremos que essas pequenas – e significantes – conquistas não fogem de demandas arrancadas no neoliberalismo (inclusão ao regime), isso é, concedidas como forma de cooptação destes movimentos dos anos 60.

A falsa ideia de termos alcançado a máxima da libertação sexual é evidenciada nas capas de jornais onde os governos que se “opõem” estão unidos para a inauguração do Templo de Salomão, que só reafirma os diversos acordos feitos entre Brasil e Vaticano, mas que também garantiram a presença de Marco Feliciano na Comissão de Direitos Humanos no ano passado. Para além dessas demonstrações “de cima”, a realidade da maioria dos LGBT segue de humilhações e condições precárias de vida. Para as mulheres lésbicas e pessoas TRANS* nada de saúde de qualidade! Para os homossexuais nenhum trabalho com salário digno que garanta acesso aos serviços básicos! Para o conjunto dos LGBT só há duas escolhas: para os ricos, o Pink Money, para os pobres o armário ou a submissão a todas as instituições capitalistas: família, igreja, escola, cadeia e o trabalho precário, quando há opções à prostituição.

Mas se apesar da aparência, ainda vivemos numa repressão sexual baseada na sociedade de classes, qual o papel da educação nessa reprodução? É possível, ainda hoje, uma revolução sexual? Qual a relação entre a educação capitalista e a homofobia no Brasil?

A educação capitalista e a homofobia: uma fonte de dominação burguesa.

A educação capitalista leva até as últimas consequências a exploração do homem pelo homem e as contradições da sociedade de classes. Ainda que a educação seja anterior ao sistema capitalista, é nele que se separou definitivamente do processo de trabalho. O próprio significado da palavra Escola, do grego, “lugar do ócio” remete a divisão entre o processo de aprendizagem dos homens livres e dos escravos, na antiguidade. Onde os primeiros, tinham uma instituição na qual aprendiam a arte do discurso e atividades físicas, enquanto os escravos aprendiam durante o próprio processo de trabalho. A escola então é criada apenas para os que tinham tempo livre, os que não trabalhavam.
Desde a idade Média, a Igreja Católica já estava presente como monopólio educacional, enquanto a maioria da população presa ao trabalho agrícola aprendia durante o processo de trabalho.

É com a industrialização que a escola passa a ser repensada. Não agora privilegiando a educação para todos ou para aumentar a consciência das massas, mas para garantir as necessidades que a nova organização do trabalho empunha. Isso significava cada vez mais a necessidade de separar o processo de aprendizagem do processo de trabalho. Porém, essa separação não significou mais autonomia e “liberdade”, mas sim uma especialização do conhecimento (positivismo) criando amarras ao pensamento e a ciência colocando-as a serviço do capital.

O modo de produção capitalista e a divisão social do trabalho impõe a separação entre o trabalho intelectual do trabalho manual. A educação, por estar diretamente ligada as instituições burguesas (estatais, municipais ou privadas) só pode reforçar isso.
 Se partimos dessa origem da escola e temos claro que essas instituições não poderiam cumprir outro papel senão de reprodução da ideologia burguesa podemos aprofundar a relação entre a educação capitalista com o aperfeiçoamento da dominação da burguesia sob as demais classes sociais, utilizando suas instituições para intensificar sua exploração. A escola como uma poderosa arma ideológica, para fazer de sua ideologia correia de transmissão, apaga a história da luta de classes, os históricos levantes dos oprimidos (como Stone Wall e o Maio Frances de 1968) e as contradições estruturais da sociedade capitalista que geram inevitavelmente crises, guerras e revoluções.

 Considerando então que as opressões são pilares do sistema capitalista e que se “por um lado é necessário modificar as condições sociais para criar um novo sistema de ensino; por outro falta um sistema de ensino novo para poder modificar as condições sociais”. Busquemos os fios de continuidade do marxismo para lançar luz a esta relação entre a educação atual e a necessidade de uma educação revolucionária para construir uma sociedade livre de opressões e exploração.

Por uma educação a serviço da luta de classes: a defesa do marxismo.

Com as mobilizações de Junho de 2013 e os levantes operários dos meses de Maio e Junho deste ano, o Brasil não é mais o mesmo. Mesmo após a realização da Copa do Mundo, o “gigante” que “despertou” continua rondando o espectro do governo, buscando saídas para os escandalosos casos de corrupção, a imensa precarização dos serviços básicos como saúde, transporte, educação e moradia. Essas saídas não podem vir por nenhum partido da ordem, pois todos estão presos aos interesses dos grandes empresários, dos milionários industriais ou seja, estão do lado dos inimigos dos trabalhadores e da população.

No entanto, nas universidades públicas pode se constatar que as intensas mobilizações de Junho não foram capazes de impactar os pilares da universidade burguesa, isto é, não deslegitimou as reitorias como castas burocráticas a serviço do governo para garantir a “propriedade privada do conhecimento”, assim como não ajudou a recuperar as entidades estudantis da rotineira tradição deixadas pela esquerda burocrática (PSOL e PSTU) que não dão exemplos de democracia de base, tampouco, utilizam essas posições conquistadas para questionar profundamente o projeto de educação burguesa, das quais as universidades não apenas reproduzem, como elaboram e mais: teorizam, contra o marxismo, contra os trabalhadores e os setores oprimidos.

Uma vez que a formação dos professores está relegada ao currículo das universidades de classe, o seu papel social nas escolas deverá ser o de reprodução da mesma ideologia. Esse ciclo vicioso cumpre o papel de que as lutas dos setores oprimidos sejam ignoradas na escola e somado aos acordos políticos do governo com as instituições religiosas, não haja educação sexual nas escolas (nem mesmo como se propunha o limitado “Kit Escolas sem homofobia”) capaz de garantir que todos os jovens possam compreender seu próprio corpo, refletindo sobre sua construção de gênero e sua sexualidade, podendo com toda a clareza possível experimentar de uma sexualidade livre e plena. Assim como educar todos os jovens com os diversos meios preventivos de doenças sexualmente transmissíveis, como também da gravidez. Pelo contrário, o não combate a essa concepção nas escolas é responsável pelo imenso número de abortos clandestinos que matam milhares de meninas e TRANS-Homens todos os anos. São responsáveis pela contaminação de diversas doenças sexualmente transmissíveis que já poderiam ter sido extintas e por toda forma de opressão que as crianças LGBT sofrem nas escolas, uma vez que, não se desmitifica ou combate os discursos reacionários que qualificam as identidades TRANS* assim como as sexualidades não heteronormativas como doenças, ou degenerações ou ainda “falta de caráter, decência, etc”.

Por isso, que não podemos seguir com essa educação capitalista, que divide o conhecimento e faz das escolas um cárcere para a juventude pobre e negra. É necessário professores revolucionários que defendam o marxismo como pensamento mais avançado, e a partir dele, questionar a educação de nossos tempos.


O papel das burocracias, reitorias e governos para a homofobia na educação.

Da mesma forma que as reitorias cumprem o papel de implementar a ideologia burguesa dentro das universidades, as diretoras das escolas são o braço ideológico do Estado na formação da ideologia da juventude, determinam a “propriedade privada do conhecimento” e para cada setor social impõem uma função.

Da mesma forma, a direção de diversos sindicados da educação como a própria APEOESP, como também diversas entidades estudantis ligadas a UNE  ao se colocar ao lado do governo Federal não são capazes de responder as opressões das escolas, nem a estrutura de poder nada democrática e nem fazer uma luta consequente por uma educação pública, gratuita e de qualidade garantindo o acesso a todos e a permanência dos LGBT, que entre TRANS* estão os maiores números de desistência, ainda nos primeiros anos de colégio.

Infelizmente, a esquerda não se coloca frontalmente contra essas instituições. Em suas campanhas eleitorais ou mesmo quando assumem posições em entidades estudantis ou sindicais “esquecem” de denunciar o papel traidor que cumprem essas burocracias e muitas vezes acabam cumprindo o papel de iludir os trabalhadores com discursos de unidade com estes inimigos.

Por isso, como parte da estratégia de organizar a classe operária como sujeito ativo da transformação da sociedade, acreditamos que as sindicais tem um papel fundamental no combate as opressões, pois são responsáveis por organizar os trabalhadores com apoio de estudantes de maneira que não se adaptem as suas lutas econômicas, mas que busquem seu potencial hegemônico, cumprindo um papel de “tribuna do povo”, isto é, levantando os principais anseios da sociedade e assim demonstrando que são os únicos capazes de levar até o fim o combate as opressões. Por isso, exigimos que essas ferramentas dos trabalhadores tomem em suas mãos esses combates, debatendo com o conjunto dos trabalhadores o papel fundamental que tem essa política contra a divisão que a burguesia busca colocar entre os trabalhadores com as opressões e até a tentativa de intensificar a exploração a estes setores. Somente assim, os sindicatos podem cumprir um papel verdadeiramente revolucionário, combatendo a separação entre movimentos sociais e as lutas dos trabalhadores imposto pelo neo liberalismo, separação esta que a esquerda tradicional hoje se adapta completamente.

Lutemos pela igualdade na lei e igualdade na vida.

Com poucos meses para as eleições de 2014, a maioria da população não vê perspectiva de quem votar. É escândalos por todos os lados, os partidos patronais já não mais enganam os trabalhadores. A lógica do “menos pior”, faz cada vez menos sentido, pois as diferenças entre PT e PSDB cada vez menos são notáveis. Sobre as demandas das mulheres e LGBT, isso fica ainda mais claro. Após a permanência por um ano de Marco Feliciano na Comissão de direitos humanos, a ida de Dilma junto de Alckimin a inauguração do templo de Edi Macedo e no programa petista para reeleição ter apenas 1 paragrafo = em 15 páginas – discutindo propostas para as mulheres, não há como se iludir.

Até mesmo o a grande conquista do PT de baixíssimo desemprego com a chegada da crise capitalista no país, começa a não ser mais uma de suas medalhas. Desde 2003 com a posse de Lula havia sido criado 19 milhões de postos de trabalho com carteira assinada. O que se omitia por traz desses números era que estavam, em sua grande maioria, baseados no trabalho precário onde a maioria destes postos estão preenchidos pelas mulheres, os negros e os LGTB.

Ainda considerado como país mais homofobico do mundo – mesmo comparado com os países onde a homossexualidade é criminalizada, os crimes contra os LGBT só aumentam (A cada 26 horas uma pessoa é morta vítima de homofobia. As TRANS* seguem com a perspectiva de vida de 35 anos. E as pesquisas demonstram que o número de assassinatos de LGBT’s só aumenta, de 2012 para 2013 teve aumento de 21%. E cresceu 177% nos últimos 7 anos de governo do PT).

Por isso a luta contra a homofobia não se dá apenas nas escolas. Precisamos de um programa político que responda as nossas necessidades:


- Que as universidades e as escolas se coloque ao lado dxs LGBT! Que a produção do conhecimento e sua influência política garanta educação sexual nas escolas! Pela permanência estudantil das travestis e transexuais! Abaixo o Acordo Brasil-Vaticano. Pelo fim do ensino religioso, heteronormativo, binario e determinista biológico nas escolas!

- Fora bancada evangélica! Fora vaticano! Pela separação da igreja do Estado! Basta de acordos e leis contra os direitos dxs LGBT, mulheres e negros!

- Que as entidades estudantis e sindicatos tomem em suas mãos a bandeira pela liberdade sexual e livre construção de identidade de gênero! Que impulsionem nas campanhas salarias e nos acordos coletivos a inclusão dxs LGBT nos planos de saúde e demais direitos trabalhistas!

- Basta de silicones industriais! Basta de mortes e lesões por não acompanhamento medico! Por um único sistema de saúde, estatizado sob controle dos trabalhadores, para garantir: aborto legal, seguro e gratuito para mulheres pobres e TRANS-homens; cirurgias de redesignição sexual, acompanhamento hormonal e psicólogos para vítimas de violência.

- Não a regulamentação da cafetinagem! Pela descriminalização da prostituição!

- Igualdade na lei e igualdade na vida! Pela aprovação da Lei João Nery! Por um sério plano de luta que garanta todos os direitos iguais para a população LGBT rumo à transformação radical da sociedade!

- Pelo fim da miséria sexual! Por casas abrigos para homossexuais e TRANS* expulsos de casa! Por espaços para a juventude exercer sua sexualidade livremente!

- Basta de assassinatos, violência e mutilações axs LGBT! Aprovação imediata da PLC 122 que criminaliza a homofobia, com comissões independentes do Estado para garantir investigação e punição para os casos de violência e assassinatos!

- Basta de estupros corretivos! Não aceitaremos a heteronormatividade compulsória! Pela livre construção da sexualidade lésbica e bissexual! E pela educação sexual preventiva a DSTs!

- Pela de despatologização das identidades TRANS*! Não há laudo para o que não é doença! Não a cura gay! Não há ciência produzida para justificar a homo-lesbo-transfobia.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Pão e Rosas e Juventude ÀS RUAS no Encontro LGBT DA USP

Veja nossas intervenções no Encontro LGBT da USP:

Virgínia Guitzel, ABC Paulista


 

 Adriano Favarin, São Paulo


 


 Tatiana Cozzarelli, Rio de Janeiro

 

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Suplemento Especial LGBT (parte 2) - AVANÇOS E CONTRADIÇÕES NA LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DE NOSSA SEXUALIDADE


A partir do estourar da crise mundial em 2008, temos presenciado cada vez maiores embates entre um ou outro direito obtido pelxs homo e TRANS* e a virulência com a qual os setores mais reacionários da sociedade respondem. Essa situação tem evidenciado o engodo propagado por vários anos de que a nossa emancipação se daria pela via de conquistas progressivas e acumulativas de direitos com a “ampliação da cidadania” dentro dos marcos do atual Estado capitalista. O aumento dos índices de assassinatos de homo e TRANS*, a situação de vida miserável na qual são lançadxs xs LGBT e as mobilizações de massas organizadas pelas Igrejas e políticos conservadores contra projetos de legalização do matrimônio igualitário escancaram que, dentro desse sistema social, econômico e político, os pequenos direitos conquistados estarão sujeitos aos cortes e ajustes que os governos e instituições financeiras internacionais imponham como também aos vai-e-vens das relações de forças sociais. O governo Dilma, do PT, já não consegue mais esconder que por trás de discursos supostamente “progressistas” se encobrem compromissos com setores direitistas e concessões às bancadas moralistas que visam reforçar o controle social à custa da retirada de liberdades democráticas.

Para compreendermos as tarefas atuais que o movimento LGBT deve se dar é necessário retomarmos os processos de luta que o movimento passou nos últimos anos desde o seu início e as mudanças sociais, estruturais e conjunturais que influenciaram e colocaram à prova as estratégias do próprio movimento, apontando os avanços que elas tiveram na luta contra a ditadura, dentro do Estado democrático, contra a moral burguesa, assim como também os seus limites e discutirmos as origens do ceticismo com a transformação radical da sociedade que hoje percorre o movimento LGBT.








A primavera do movimento sexual.

Anos 60 e 70, os primórdios da luta pela libertação sexual.
 
Encontrando-se nos limites do crescimento econômico parcial proporcionado pelo fim da Segunda Guerra Mundial e desiludida com as perspectivas de futuro em um mundo polarizado entre um capitalismo que não apresentava qualquer nova esperança e um socialismo degenerado pelo stalinismo em uma ditadura burocrática contra xs trabalhadorxs e setores oprimidos, a juventude se radicaliza internacionalmente nos finais da década de 60 e toma as ruas contra a crise econômica, contra a guerra do Vietnã, contra o arrocho de vida, contra a moral e os costumes conservadores e contra a ordem social e cultural vigente.

Em várias partes do mundo essa explosão de indignação e questionamento da juventude se liga com as demandas econômicas e políticas da classe operária e da maioria da população, originando ascensos revolucionários de massas. Esse processo invade a vida privada e revira as roupas de cama, mesa e banho da família nuclear burguesa, entorna os vinhos e champanhes no chão da sala de jantar e enfia as mãos até os cotovelos nos cestos de peças íntimas retirando, fétidas, peça por peça de toda a moral cristã apodrecida e de sexualidade conservadora e miserável da família tradicional.


É nesse contexto que o movimento pela libertação sexual sai do “armário” imposto pela repressão, irrompendo na cena mundial com as barricadas de Stonewall e a visibilidade “orgulhosa”. Entre a defesa intransigente das travestis, trans e homossexuais do espaço do bar Stonewall contra as violentas e cotidianas batidas policiais e as passeatas e organização em torno da afirmação identitária e sexual sobre ser “gay” e “lésbica”, xs homo e TRANS* travavam um combate à família tradicional, ao par heterossexual monogâmico e a todas as relações intersubjetivas que eles engendravam, marchando em defesa do amor livre e da vida comunitária. Colocavam a luta pela livre expressão da sexualidade como parte da luta em defesa do direito à mente e ao corpo, pela defesa do direito à maternidade e ao aborto.

Compreendiam a família tradicional como uma reprodução em menor escala do Estado capitalista, fonte da educação e reprodução dos valores da sociedade patriarcal e normativa, combatiam na linha-de-frente a miséria sexual que assolava a humanidade de conjunto e por isso mesmo faziam de sua luta uma luta política contra as bases do sistema capitalista. A luta pela liberdade social era vista dentro do movimento pela libertação sexual como condição primordial para a conquista dessa libertação. Nessa perspectiva xs homo e TRANS* se organizavam para combater tanto a ordem capitalista quanto o controle férreo da burocracia stalinista nos Estados Operários.

Em 28 de junho de 1969, em Nova York, no bar StonewallInn, xs homo e TRANS* afro-americanos e porto-riquenhos resistiram às investidas repressoras da polícia se organizando para defender seu espaço e em 1970 a organização "Frente de Liberação Gay (GFL)" surgida nesse processo participava da Convenção Revolucionária organizada pelos Panteras Negras. Antes, em 1º de novembro de 1968, durante a ditadura militar na Argentina, surgia no subúrbio operário de Buenos Aires o primeiro grupo político-sexual da América Latina, “Nuestro Mundo”. Dirigido por um sindicalista comunista expulso do PC por ser homossexual, este grupo atuou na clandestinidade até se fundir com outros grupos em 1971 na “Frente de Liberación Homosexual (FLH)” lançando o Manifesto “Sexo y Revolución”. Na sequência dos processos que em maio de 1968 sacudiram a França, no qual xs estudantes universitárixs foram até as fábricas se ligar com xs operárixs em greve para paralisar o país, surgiria a "Frente Homossexual de Ação Revolucionária (FHAR)", com o objetivo de organizar xs trabalhadorxs e xs homo e TRANS* para uma revolução política, social e sexual. Em 1º e maio de 1971, no Dia do Trabalhador, a FHAR desfilava ao lado dx soperárixs com uma faixa “Abaixo a ditadura dos normais!” e buscava se ligar com as organizações partidárias da extrema-esquerda, como as trotskystas, na perspectiva da revolução:

“Para nós, a luta de classes passa também pelo corpo. O que significa que nossa recusa em suportar a ditadura da burguesia está libertando o corpo dessa prisão, que durante 2 mil anos de repressão sexual, de trabalho alienado e de opressão econômica foi sistematicamente fechado. Então, não existe nenhuma possibilidade de separar nossa luta sexual e nosso combate cotidiano pela realização de nossos desejos, de nossa luta anticapitalista, de nossa luta por uma sociedade sem classes, sem mestre, nem escravo.”


Dezesseis grupos de dez países irão formar a Internacional Homossexual Revolucionária (IHR). Pela primeira vez na história, o questionamento da repressão sexual buscava a superação da sociedade do capital, se ligando com a classe operária em uma perspectiva revolucionária e internacional.


O outono do movimento sexual.

Anos 80 e 90, os primórdios do neoliberalismo, da cooptação e da restauração burguesa.

As organizações criadas pela classe operária, como os partidos social-democratas e comunistas, e até mesmo os sindicatos e os Estados Operários burocratizados, porém, não impulsionaram esse processo convulsivo de greves selvagens e intensos debates no meio revolucionário sobre amor-livre e combate a todas as formas de opressão. Pelo contrário, atuaram como freios do ascenso revolucionário de massas e como agentes da implementação das medidas que reconfigurariam pelos próximos 30 anos o domínio capitalista pela via da fragmentação dxs trabalhadorxs com o neoliberalismo. Essa situação desmoralizou politicamente das massas à vanguarda e endossou um ceticismo profundo sobre a possibilidade da transformação social pela via da organização e direção revolucionária da classe trabalhadora. A desorientação e fragmentação anterior da esquerda revolucionária com o fim da Segunda Guerra Mundial impediu que uma direção consequente canalizasse todo esse rico processo dos anos 60 e 70 e a classe dominante conseguiu se sustentar pela via do avanço sobre os Estados operários burocratizados pelo stalinismo, por meio do crescimento das formas de regime democrático capitalista incluindo a participação da classe média e de setores privilegiados da classe operária e envolvendo os movimentos sociais e subversivos da moral e dos costumes sob a tutela e institucionalização do Estado.

Exatamente assim se procedeu com o subversivo movimento pela libertação sexual. A incorporação de algumas demandas de igualdade sexual na pauta de políticas públicas do Estado visando à cidadania cooptou uma parte significativa dxs homo e TRANS* da pequena-burguesia que tiveram a porta aberta ao consumismo, ainda que em guetos voltados para sua orientação sexual “dissonante”. A consolidação de um mercado gay e a exaltação do indivíduo tendo sua realização no consumo firmaram as bases do “pinkmoney” e permitiu que a classe dominante quebrasse ao meio o movimento pela libertação sexual. Enquanto isso, os setores homo e TRANS* da classe trabalhadora padeciam na marginalização, no aumento dos índices de desemprego, na proliferação da pobreza, da violência policial, no aumento da exploração nos postos de trabalhos precarizados, na prostituição e na degradação social e também, sexual, a partir da restrição de sua satisfação e práticas sexuais ao esconderijo, sujeito a ambientes insalubres, perigosos e anti-higiênicos.

O divórcio da classe operária, encabeçado pelas suas direções, com os movimentos sociais se consumou e o movimento homo e TRANS* abandonou a luta contra a ordem social e moral que o capitalismo impõe e se contentou em pressionar as instituições do Estado por um “aumento de cidadania”. A classe dominante pôde então avançar ainda mais contra os setores oprimidos, ao ponto da primeira política pública do Estado aplicada axs LGBT ter vindo diretamente da pasta de saúde pública com a ofensiva da epidemia da AIDS. O extermínio de milhares de homo e TRANS*, o isolamento, o medo, a estigmatização e a patologização da prática homoafetiva submeteu o movimento LGBT ainda mais de joelhos perante um Estado que, pautado pela opinião pública por ele mesmo edificada, marginalizava xs homo e TRANS* como problema de saúde pública. Nesse período difícil para xs LGBT's, o refúgio nas ONG’s e nas mendicações ao Estado aprofundou ainda mais a institucionalização do movimento e sedimentou as bases da estratégia que viria a pautar o movimento LGBT a partir de então: a busca de direitos e do “aumento da cidadania” a partir de políticas públicas e da pressão por dentro das secretarias e comissões do Estado e dos lobbys parlamentares.


Por uma saída revolucionária para nossa sexualidade!

A revolução, ainda hoje, é uma condição fundamental para nossa emancipação.


Os longos anos de neoliberalismo aprofundaram um distensionamento na busca por uma estratégia capaz de alcançar a emancipação de nossa sexualidade. O que ficou conhecido como “grau zero de estratégia” nos anos reacionários, onde se restauraram o capitalismo nos ex-estados operários e se construiu uma forte ideia de triunfo do capitalismo, “fim da história” e “fim da classe trabalhadora”, foi responsável pelas diversas analises que hoje fundamentam o movimento LGBT/Queer.

Essa derrota objetiva, ligado ao fato do marxismo clássico e dos marxistas revolucionários que o sucederam não terem desenvolvido nenhuma tese ou contribuição à libertação sexual, com foco na opressão sofrida pelos LGBT, abriram o caminho para a construção de uma estratégia de emancipação pelos setores reformistas ou pós-modernos, sem lançar luz a partir das ferramentas do marxismo, no sentido da emancipação revolucionária de toda forma de sexualidade e identidade de gênero. O stalinismo, de forma mais completa, traiu a luta dos setores oprimidos e garantiu uma ampla influência em diversos partidos comunistas do mundo de invisibilizar e não oferecer nenhuma alternativa para os que mais sofrem com a sexualidade não-heterossexual e as identidades TRANS*. A identificação errônea do stalinismo com o socialismo foi a grande responsável pelo abandono dessas ferramentas pelxsLGBT's. 

A cisão dos movimentos sociais com a luta dos trabalhadores costurada nesses anos que chamamos de restauração burguesa garantiu o surgimento de uma tendência dentro do movimento LGBT que tem grandes pensadores que a representam, sendo ainda hoje muito referenciados: Foucault e Judith Butler, como principais símbolos.



A teoria Queer e toda uma “onda” do trans-feminismo hoje se pautam pela visibilidade (luta por ganhar espaços midiáticos e impor um reconhecimento social) e pelo idealismo, que retorna a Hegel, Austin e outros teóricos, para afirmar que “a linguagem determina a vida” e a ideia de “poder da fala”. Se por um lado há que se reconhecer como um progresso a visão difundida de que a construção da identidade de gênero e da sexualidade são frutos da sociedade em que vivemos, por outro, esta alternativa descolada da materialidade e das relações sociais nos parece um grande retrocesso estratégico na luta por nossa emancipação. Isto é, nossa assimilação do que somos, nossa construção individual, não pode se desligar das condições materiais que partimos para construí-las, da sociedade de classes, das variadas combinações de opressões e da ordem heteronormativa, binária e transfóbica a que somos bombardeados. Isso não deve nos levar a lógica de que somente os LGBT são oprimidos por sua sexualidade e identidade de gênero, mas sim que toda repressão sexual é fruto de uma necessidade objetiva do capitalismo de dominar nossos corpos e mentes para avançar na sua exploração, isso pode ser identificado na sexualidade reprodutiva que a maioria dos trabalhadores possuem, de maneira compulsória, sem ter conhecimento sobre o próprio corpo, deixando para as mulheres trabalhadoras a responsabilidade materna, sem a permissão de sentir prazer e construir sua identidade livremente.



Se, por um lado, a teoria Queer combate a reacionária visão de determinismo biológico (onde muitos LGBT se apoiaram num combate defensivo a ideologia da AIDS como “doença gay”), onde a biologia determinaria 100% nossa sexualidade e nosso gênero (impossível de ser re-construído) – o que serve de base para visões conservadoras e religiosas de patologização das identidades TRANS* e da sexualidade não normativa (sem fins reprodutivos), por outro, joga xs LGBT numa deriva estratégica, que em última instancia deposita no Estado ilusões de reformas progressistas, em geral pela via da reeducação da qual o pós-modernismo se debruça a construir a partir de uma contra-cultura.

Ainda que reconheça a sociedade capitalista, o pós-modernismo em suas mais variadas correntes de pensamento, não analisa os pilares do sistema capitalista buscando destruí-los para erguer uma sociedade comunista, onde sejamos verdadeiramente livres e possamos desconstruir e construir livremente nossas expressões e identidades. Por isso, para além da produção teórica – que sem dúvida cumpre um papel chave de combate a ideologia dominante que segue vigente nas universidades burguesas produtoras das mais variadas opressões - a revolução ainda segue como condição fundamental para nossa emancipação. A Revolução Russa – sobre a qual nos apoiamos –, que em 1918 já garantia a liberdade sexual (legalizando a homossexualidade), demonstra que mesmo as democracias capitalistas mais avançadas de hoje, ainda não podem garantir sequer o fim das padronizações para não se desvincular do “mercado rosa” (Pink Money), um nicho de mercado voltado ao público LGBT pequeno burgues ou diretamente burgues, que mantém "até onde se tolera" xs LGBT nos marcos do regime. O mercado rosa é uma das variadas formas de "inclusão" que amplos setores reivindicavam como medida progressiva de inclusão social dxs LGBT, que, no entanto, só expressa como apenas uma pequena parcela pode ser incluída, determinada novamente pelo caráter de classe.

É também lição da revolução russa, de que a transformação das bases econômicas não garantirá de imediato a nossa emancipação. Todavia, a revolução segue como condição para libertar todos os países da lógica capitalista de consumo, propriedade e de reprodução da família como regra, para permitir que revolução avance em todos os níveis, que destrua os pilares que perpetuam o machismo, o racismo e a homo-lesbo-transfobia. Sendo o capitalismo herdeiro último da sociedade patriarcal dividida em classes, é necessário defender fortemente a sua destruição internacional para que permita erguer-se uma nova sociedade baseada na relação de produtorxs e reprodutorxs livres, o que só é possível com uma política internacionalista também no âmbito da sexualidade.



Suplemento Especial LGBT (parte 1) - O FALSO PROGRESSISMO DO PT E AS MOBILIZAÇÕES DE JUNHO

A necessidade de uma estratégia revolucionária para 
nossa emancipação.

“É um fato curioso que, a cada grande movimento revolucionário,
vem à tona a questão do ‘amor livre’.” (F. Engels, 1883)



Se resgatarmos o período da última eleição presidencial até junho de 2013 vamos perceber que o horizonte para xs homo e TRANS* ficava mais sombrio a cada dia que passava. A partir do compromisso firmado entre Dilma e a bancada religiosa, vimos primeiramente a pauta da legalização do aborto e do direito a maternidade ser simplesmente rasgada pelo PT; depois as cartilhas educacionais e de saúde voltadas para explicar sobre a sexualidade e as DST’s foram banidas; o acordo Brasil-Vaticano vigorava e na medida que o ensino religioso nas escolas se ampliava, se ampliava também o número de homossexuais assassinados no país (de 2003 à 2007, aumentou-se 117% de assassinatos a LGBT – dos registros oficiais); e na coroação dessa ofensiva, o PT fechava acordo com o Partido Social Cristão que colocaria Marco Feliciano, pastor declaradamente homofóbico e racista, na presidência da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM) da Câmara dos Deputados.

Porém, em junho de 2013 vimos tudo isso mudar. A partir da mobilização de massas da juventude foi possível barrar o projeto de cura-gay e do Estatuto do Nascituro apresentado pelos setores conservadores na Câmara, após junho os questionamentos e alvoroços sobre a aprovação da união estável entre homossexuais, de súbito, silenciaram. A luta nas ruas e a atuação coletiva das massas de juventude freou o avanço que os setores mais conservadores da sociedade, benzidos e abençoados pelo governo do PT, estavam impondo sobre a vida e os direitos dxs LGBT. Essa conquista conjuntural nos fez extrair a lição de que a estratégia individualista de simplesmente nos construirmos como somos por fora de atuar coletiva e politicamente pelos nossos direitos não serve. Permite também confrontarmos esta lição com a experiência histórica que xs homo e TRANS* se propuseram na década de 70, de encabeçar a linha de frente da luta pela libertação sexual de toda a humanidade sempre buscando ter consigo o apoio e a participação da maioria dos setores da sociedade, em especial xs trabalhadorxs.

A ausência dxs trabalhadorxs como sujeito político e a debilidade dos sindicatos e das entidades estudantis de organizarem a juventude e tomarem em suas mãos as bandeiras dxs LGBT nas manifestações de Junho foi o seu principal limite. Isto fez com que, mesmo com as derrotas que o movimento impôs à pauta dos conservadores, Marco Feliciano permanecesse até o final do seu mandato na presidência da CDHM. 

Esse limite, porém, tem uma superação sem precedentes apontada em fevereiro de 2014, quando xs bravxs garis do Rio de Janeiro decidem interromper o Carnaval carioca como nenhum setor social poderia sonhar em fazer para exigir a valorização do salário. E sem se dobrar perante as ameaças do prefeito, do patrão, do juiz, da polícia e nem da burocracia sindical conseguem impor uma fragorosa derrota à classe dominante e um exemplo para xs trabalhadorxs e oprimidxs! Somente imagine a moralização para xs trabalhadorxs, e o choque educativo contra a ideologia dominante homofóbica e machista que não haveria, se um grupo organizado de homo e TRANS* se colocassem ativamente a apoiar e prestar solidariedade a esta luta? Imagine os frutos que essa aliança não traria também na luta pelas pautas dsx LGBT, ao terem suas bandeiras levantadas pelxs garis com os métodos operários de piquetes e paralisações? “Não tem arrego” nem para Feliciano nem para Bolsonaro!


Essa, a estratégia revolucionária, baseada nas mobilizações coletivas de massas, na organização dos setores oprimidos em aliança com xs trabalhadorxs e na hegemonia dos métodos e da centralidade da classe operária, é a única que pode responder contra a homofobia e na conquista, inclusive, dos mínimos direitos formais hoje negados pelo Estado capitalista e sujeitos ao jogo das forças sociais, aos acordos político-parlamentares e, pelos vai-e-vens da economia, ao sabor e gosto do FMI e do Banco Mundial. A garantia do fim da homofobia vai muito além da existência de uma lei. Como bem sabemos, com oito anos de existência, a Lei Maria da Penha não conseguiu reduzir mais do que 5% dos casos de feminicídio e nem dize sobre a violência contra a mulher. Também a criminalização do racismo até hoje não puniu ninguém por este crime – e não nos faltam exemplos de racismo, inclusive amplamente divulgados pela mídia e cometidos por figuras públicas, que podemos citar!

Dirigir o movimento, como fazem as correntes LGBT ligadas ao PSOL, com o norte na luta pela aprovação de leis (PLC’s) por esse Estado capitalista através da pressão pela via dos seus lobbys parlamentares, como Jean Wyllys e outros, só serve para fortalecer um Estado regulador e não combater o problema social. Ao mesmo tempo em que existe pouco ou nenhum investimento em tudo o que possa transformar a pobreza, a dependência e a precarização das mulheres, existem inúmeras leis penais para protegê-las, mas que não garantem igualdade na vida. Fazer deste o norte estratégico de luta dxs homo e TRANS*, como defendem xs reformistas do PSOL, significa depositar no Estado capitalista todas as fichas para nossa emancipação, sem nenhuma ação efetiva rumo a sua destruição. 

Também a estratégia de pressão por via de atos de rua para exigir dos governos a aprovação de leis, como propõe o PSTU, termina servindo aos mesmos interesses, pois novamente não deposita energias na construção de um serio plano de lutas organizado desde a base, pelo contrário, atuam por fora dos sindicatos e entidades estudantis que dirigem desperdiçando o importante papel de reconstruir a ponte entre as demandas dos setores oprimidos e a luta dos trabalhadores. A única maneira em que a luta pela criminalização da homofobia pode servir para organizar xs homo e TRANS* na luta contra o Estado é se a esquerda superar a estratégia “antineoliberal” e adotar uma estratégia verdadeiramente revolucionária, que parta de reconstruir a ligação, destroçada pelo neoliberalismo, entre os movimentos sociais e o movimento operário, sendo somente por meio dos métodos dos trabalhadores a única possibilidade de alcançar as demandas dos setores oprimidos, levantando bandeiras que se enfrentam não apenas com a moral burguesa, mas com a estrutura do capitalismo que a mantém.





De Milk à Jean Wyllys: 

a incapacidade do reformismo para responder nossas reivindicações

Centenas de LGBT hoje se veem representados pelo deputado Jean Wyllys (PSOL), pelo seu combate as bancadas religiosas que tentam repetidamente retroceder nos direitos conquistados pelos setores oprimidos. A ilusão que Jean Wyllys cria no poder do Estado em defender os setores oprimidos é parte de sua estratégia de garantir direitos acumulativos a partir de projetos de lei, mas sem nenhuma organização independente rumo à tomada do poder.

Para alguns, o simples fato de termos homossexuais dentro do Estado já é em si um avanço progressista. Porém, com a chegada de uma presidenta mulher ao poder, podemos facilmente identificar que o gênero, a etnia ou a sexualidade não garantem por si uma política emancipadora. Os projetos de lei de Jean Wyllys, com destaque para a Lei Gabriela Leite, revelam que as políticas ditas como “progressistas” não se enfrentam com a ordem capitalista, pelo contrário, neste projeto de lei, Jean Wyllys regulamenta a cafetinagem e ainda institui que só é reconhecido como exploração sexual a “apropriação total ou maior que 50% do rendimento de prestação de serviço sexual por terceiro”, o que demonstra à quem esse PL favorece. E se considerarmos que as travestis e transexuais são as mais afetadas pela prostituição compulsória (única alternativa para garantia de sua sobrevivência), o projeto de Lei não se apresenta como alternativa consequente, pois desconsidera a impossibilidade de legislar sobre a prostituição marginal da qual sofrem as TRANS*.



Se retomarmos a trajetória de Harvey Milk, primeiro homossexual declarado a assumir um cargo político nos EUA, veremos que desde sua participação na revolta de StoneWall até seu assassinato em 1978, sua estratégia era puramente reformista, mas infinitamente mais combativa à postura de Jean Wyllys, que vê no parlamento um “plano de carreira”, onde defende com unhas e dentes os super-salários. De um a outro, podemos ver que nas situações mais diversas, tanto com um parlamentar que participou da revolta de StoneWall até Jean Wyllys, que hoje nos próprios projetos de lei atacam os setores oprimidos, o reformismo não foi uma alternativa. As lutas dxs LGBT não se inserem no marco de “mais direitos”, pois a liberdade sexual exige uma superação da ordem vigente, para que nossos corpos e mentes sejam verdadeiramente livres. Enquanto a lógica capitalista de produção e lucro prevalecer nossos corpos não poderão ser mais do que objetos, nossa sexualidade mais do que uma função reprodutiva à serviço da construção de um exército de reserva e nossas mentes patologizadas por querer construir livremente nossas identidades.

- Que a universidade se coloque ao lado dxs LGBT! Que a produção do conhecimento e sua influência política garanta educação sexual nas escolas! Pela permanência estudantil das travestis e transexuais! Abaixo o Acordo Brasil-Vaticano. Pelo fim do ensino religioso, heteronormativo, binario e determinista biológ
ico nas escolas!

- Fora bancada evangélica! Fora vaticano! Pela separação da igreja do Estado! Basta de acordos e leis contra os direitos dxs LGBT, mulheres e negros!

- Que as entidades estudantis e sindicatos tomem em suas mãos a bandeira pela liberdade sexual e livre construção de identidade de gênero! Que impulsionem nas campanhas salarias e nos acordos coletivos a inclusão dxs LGBT nos planos de saúde e demais direitos trabalhistas!

- Basta de silicones industriais! Basta de mortes e lesões por não acompanhamento medico! Por um único sistema de saúde, estatizado sob controle dos trabalhadores, para garantir: aborto legal, seguro e gratuito para mulheres pobres e TRANS-homens; cirurgias de redesignição sexual, acompanhamento hormonal e psicólogos para vítimas de violência.

- Não a regulamentação da cafetinagem! Pela descriminalização da prostituição!

- Igualdade na lei e igualdade na vida! Pela aprovação da Lei João Nery! Por um sério plano de luta que garanta todos os direitos iguais para a população LGBT rumo à transformação radical da sociedade!

- Pelo fim da miséria sexual! Por casas abrigos para homossexuais e TRANS* expulsos de casa! Por espaços para a juventude exercer sua sexualidade livremente!

- Basta de assassinatos, violência e mutilações axs LGBT! Aprovação imediata da PLC 122 que criminaliza a homofobia, com comissões independentes do Estado para garantir investigação e punição para os casos de violência e assassinatos!

- Basta de estupros corretivos! Não aceitaremos a heteronormatividade compulsória! Pela livre construção da sexualidade lésbica e bissexual! E pela educação sexual preventiva a DSTs!

- Pela de despatologização das identidades TRANS*! Não há laudo para o que não é doença! Não a cura gay! Não há ciência produzida para justificar a homo-lesbo-transfobia.